domingo, 20 de agosto de 2017

MINICONTO INSPIRADO NA OBRA DE CHICO BUARQUE


A BANDA PASSOU

A moça ficou.  Nem estrela brilhou. Uma tarde já idosa, surda, cega, sentiu o roçar de uma mão. Era João, pedindo esmola. Não só ganhou a coroa, como a cara e o coração. Naquele outono, na janela entre aberta, a cortina se fechou.

Liz Rabello
( DES) ESPERANÇA

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
Perdendo direitos conquistados
Voltando à fome, à dor do jejum a esperar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Por ver a face maligna da Direita torta
Enriquecendo os bolsos com impostos sonegados
Vociferando contra quem pensa no trabalhador
E vomitando migalhas de pão em ódio inflado
De lágrimas de hipocrisia
Nas doações do Criança Esperança

Liz Rabello

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"- Para onde vão os trens, meu pai? 
- Para todos os lugares, mas ainda que se mova o trem, 
tu não te moves de ti."
Hilda Hilst


A poesia corta asas da mentira
Incendeia a fogueira em cinzas
Lança um turbilhão de polêmicas
Tempestades de ideias
Desafina as notas musicais do violão
Constrange a realidade
E a recria!

Liz Rabello

segunda-feira, 14 de agosto de 2017


BORRÕES DE AMOR

Por trás dos montes nuvens se agitam
Compõem desenhos de cor em degradê
Mágicas canções em notas multicores
formam-se agitadas ondas em nuances

Antes da lua prateada sondar a escuridão
O sol nos leva para outras dimensões
Uma tempestade de cores se forma no horizonte
Aos nossos olhos autênticos borrões de amor!

Liz Rabello

Paraty, Rio de Janeiro, um lugar onde a História parou.
(Foto de Lili Guitti)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017


Ao meu amor Carloz Torres

Sei que foi apenas um sonho
Nitidamente eu vi as suas mãos
Fechadas como em pose de oração
Você abriu suavemente os dedos
E das palmas abertas voou a linda borboleta
E como mágica eram várias
Azuis, translúcidas, serenas
Voando sem pouso em liberdade

Liz Rabello

quinta-feira, 10 de agosto de 2017


Das janelas do meu livro
Voam palavras
Frases belas
Livres celas
Para o céu do infinito

Liz Rabello

sábado, 22 de julho de 2017


ALÉM DAS PEDRAS

De tempos a tempos
Me atiram pedras
Direções inesperadas
Pessoas más indesejadas
Como ondas gigantes do mar a bailar
Eu rochedo a me quebrar
Palavras tortas sangram rios
Torrentes de revoltas
Não as quero ouvir
Meus olhos buscam além das pedras
Muito embora elas sejam jogadas em mim
E agem como água benta
Tentando polir arestas
Mil vezes repito:
“Podem jogá-las
Construirei um castelo
Com Fernando Pessoa vou morar
À porta de ferros
Um jardim de pedras
De minha mente
Gramado verde a florir intensamente
E fazer valer a pena rolar pela vida”


Liz Rabello

terça-feira, 18 de julho de 2017


REBELDIA (*)

Perdemos os nossos direitos
Reforma trabalhista votada
CLT destroçada
Carteira assinada, nem pensar!
Agora virá a da Previdência
Sem SUS
Sem Farmácia popular
Com Planos de Saúde a aumentar
Sem emprego pra mais de catorze milhões
Sem moradias pra gente pobre a Deus dará
Sem aposentadoria antes dos setenta

E esta elite podre
Corrupta
Continua a gastar a gastar a gastar
De forma inútil e fútil
Que venham ovos
Que a paz se perca
Que não tenham sossego
Nem porra nenhuma pra comemorar

Liz Rabello

(*) Queda da Bastilha em Curitiba (14/07/2017 - 
Casamento da Deputada Maria Victória Barros, conhecida como "Camburão" 

Parabéns ao fotógrafo Lineu Filho que captou a essência do nosso país!



Nossa indústria bélica: Homem bomba em ação

segunda-feira, 17 de julho de 2017


FACE DA DOR

Estive num lugar
Onde minha alma e meu coração
Jamais queriam estar
Quando nossos olhos se encontraram
E nossos braços em abraço
Aos prantos
Por segundos
Se entrelaçaram
Eu vi a verdadeira face da dor
Não há como explicar com palavras
E eu que tenho tanto enlace com elas
Emudeci e meu coração virou cinzas


Liz Rabello

sábado, 15 de julho de 2017


TEMPOS ESTRANHOS

Estava no salão de beleza. Por ser sábado, muita gente por lá. Mamães e titias e babás atenciosas e amorosas com suas crianças. Era aniversário de seis aninhos de uma princesa, Maria Eduarda, sendo cuidada pela babá como se fora a própria mãe a lembrar de todos os detalhes de como deveria ser o penteado, para que a tiara valorizasse o rostinho de traços perfeitos da menina educada.  Trançava as pernas delicadamente na cadeira e sorria a cada movimento que a fazia mais bela ao próprio olhar.

A segunda criança, por volta de um ano e meio, me encantou. Descendente afro, os cachinhos desciam pelo rosto puro, olhos grandes e negros. Alegres e perspicazes diante do mundo que desbravavam. A tia lhe ensinava a usar o celular, cantava junto com os desenhos animados canções que conheço bem, porque tenho o hábito de cantar pra minha neta. A mãe, grávida de oito meses, também se revezava e brincadeiras como a canoa virou por deixá-la virar, nas pernas que embalavam a bebê, inundavam de alegria o rostinho puro da menina e o meu olhar.

A terceira criança, que logo completará dois anos, era uma pestinha, levada da breca, igualzinho uma garota que conheço muito bem, a Juju, minha netinha. Ou pelo amor que tenho a minha princesa, ou pelo fato de gostar mesmo de crianças e com elas ter convivido minha vida inteira, por ter sido professora, nada que aquela doçura fizesse poderia me irritar. Mesmo quando pegou minha bolsa e a virou de pernas pro ar, abandonando tudo por ali, a Deus dará. Todos correram em meu auxílio e os objetos foram repostos à bolsa com a devida urgência que o caso requeria. Estranhei a frieza da mãe, mas...  Tudo bem, afinal estava fazendo as unhas, com as mãos ocupadas. Logo a seguir, com a ligeireza das artes infantis, a chupeta voou pelos ares, caiu ao chão e foi imediatamente colocado de volta à boca da neném, sem sequer ser lavada, embora o salão não estivesse nada limpo.  Percebi a barriguinha grande da criança, sinalizando que não poderia estar saudável. Troquei olhares reprovativos com a dona do Salão e viramos a página. Às vezes é melhor se calar.

A mãe continuava a se embelezar. Nada reprovável, todos estávamos ali para cuidar da aparência, inclusive eu. Foi então que a menina correu e pegou algo da mão da mãe, que imediatamente retrucou: “Me dá, senão te bato” – A menina continuou correndo e subiu no sofá desajeitada. Ambos voaram pelos ares. A mãe correu, derrubou a manicure. Esmaltes, água, acetona, tudo pelo chão, mas a mulher conseguiu o que queria. Salvou da queda... O celular, enquanto a criança se estatelava pelo chão!

Liz Rabello

quinta-feira, 13 de julho de 2017


Manifestação?
Greve?
Tomar as ruas?
De nada adianta
Quem vê morador de rua?
Coletor de lixo?
Reciclador de papéis?
Camelô de periferia?
Artista de circo no farol?
Usuários na Cracolândia?
Filas de desempregados?

MISÉRIA, MISÉRIA PRA TODO LADO

Recepcionista de balcões?
Motoboys cruzando o tempo na fúria?
Professor da Rede Pública?
Secundarista de escola pública?
Brancos pobres,
Negros mulatos,
Pardos garis
Somos todos iguais
Somos povo

INVISÍVEIS!
ESQUECIDOS!

E povo não é gente
Para a elite que não sente
Pra gente boba que se mente
E se acha acima da pobre gente
Que se estatela no asfalto desta cidade

Liz Rabello