quarta-feira, 20 de setembro de 2017



ENTRE ROUBOS E ASSALTOS NA PERIFERIA DA CIDADE DE SP

É numa situação de grande stress que descobrimos a verdadeira face das pessoas que nos cercam. Por esta razão os assaltantes que nos levam o pouco que temos, esforço de uma vida inteira de trabalho, não são os únicos a nos roubarem os sonhos. Entre roubos, assaltos à mão armada, sequestro relâmpago, tentativa de estupro ou até mesmo estelionato, já vivenciei de tudo um pouco e depois de cada experiência desagradável uma aprendizagem e a descoberta de uma nova etapa da vida.

O PRIMEIRO ROUBO
Voltava de lua de mel, enxoval novo, peças com carinho escolhidas e compradas. Lavei tudo com muito jeito, cuidado e as coloquei no varal, penduradas ao sol, o vento as fazia esvoaçar de brilho novo e intenso.  Saí para a primeira compra de mercado, feliz, como só a menina distraída e apaixonada poderia ser. Comprei uma caixa de sal, porque estava em oferta e tive sal para minha vida inteira de casada. Laranjas demais que acabaram estragando, bananas maduras que apodreceram antes de serem degustadas.  Enfim, muito dinheiro jogado fora em compras que não valeram a pena. E ao chegar em casa, a grande surpresa: Um ladrão havia surrupiado peça a peça do meu enxoval. As melhores roupas que só usara em minha viagem de lua de mel. Eu nunca mais as vi. Minto, vi sim. Dias depois dentro de um ônibus, uma garota vestia meu terninho de gorgorão vermelho. Impossível coincidência! Naquele tempo não havia peças iguais costuradas nas fábricas da China e vendidas no Brasil a preços módicos. Além do mais, os botões, o designer, a costura, tudo escolhido por mim mesma. Era o meu terninho. Não havia dúvida! Até hoje tenho gana de arrancar a roupa daquela moça que estava em pé, ao meu lado, no ônibus.

LIÇÃO DE VIDA: Nunca mais lavei de uma leva só tanta roupa e muito menos as mais novas de uma única esfregada.
O SEGUNDO
Talvez a ordem não seja esta. Os fatos se mesclam em minha memória. Fui passear na Lapa, como sempre fazia, principalmente em dias de turbulência dentro da sala de aula. Entrei na pastelaria de esquina da Rua 12 de Outubro. Pedi meu pastel predileto, bem queimadinho nas pontas e abri a bolsa para pagá-lo tão logo ficasse pronto. De repente um solavanco, alguém me empurrou de tal sorte que eu quase caí e outra pessoa sorridente me ajudou a me segurar no balcão. O pastel chegou e quando fui pagá-lo, cadê a carteira? Fora surrupiada de dentro da bolsa aberta. Fiquei deveras zangada comigo mesma por ter aberto aquele zíper na hora errada. Ganhei outro pastel de graça, mas nunca mais entrei naquela pastelaria de esquina. Dias depois, alguém me telefona: “Seu nome é este que está num RG?” – Sim.  – “Pois bem, encontrei sua carteira, quer vir pegar? E lá fui eu, sorridente, feliz da vida. Afinal naquela época não existia um “Poupa Tempo” ou lugares fáceis para se tirar documentos novos. Ao chegar no lugar do encontro, eis que me deparo com alguém que só queria arrancar o meu couro. Tive que dar àquela pessoa uma notinha novinha de um dinheiro bom em troca dos meus documentos de volta. Por que será que tive a impressão de que o ladrão se vingara de ter encontrado apenas o dinheiro certo para pagar um pastel?

LIÇÃO DE VIDA: Nunca mais usei carteira com documentos. Eu os jogo aleatoriamente dentro da bolsa.
O TERCEIRO
Estava na época de se usar correntinhas de ouro com medalhas de crianças. Uma menina significava uma filha mulher: um menino, um filho homem.  Demorei um tempão para comprar duas medalhas masculinas. Estava frio. Usei um agasalho branco e ao sol deixei brilhar as medalhinhas. Algum olho sinistro as percebeu e veio direto em minha direção, arrancando-as do meu pescoço com muita força. Correu feito louco pela Rua Doze de Outubro, na Lapa, e eu voando atrás.  Só via as medalhinhas presas à corrente brilhando. Eu só gritando. A certa altura, alguém se põe a correr comigo, um moleque negro bem risonho. Disse-me para não me preocupar que pegaria o ladrão, antecipou-se à minha frente e me deu a maior rasteira que já levei na vida. Resultado: Fui de boca no chão, manchando minha blusa branca de puro sangue, dor e raiva.

LIÇÃO DE VIDA: Nunca mais usei nada de ouro, afinal em tempos de fome é um verdadeiro acinte usar joias numa manhã de sol.
O QUARTO
No princípio de minha carreira como professora, após um concurso de efetivação, fui trabalhar na zona leste. Comprei um carro, o meu Volks, lindo e que tanto me fez feliz. FH 0130, creme. Meu maior desejo era viajar para o litoral. Meu marido, do primeiro casamento, pois sou viúva, tinha um amigo. Ofereceu um final de semana com a esposa e dois filhos. Fomos. Deu a maior confusão no combinado, porque como fui trabalhar, numa reunião pedagógica num sábado, fiquei a esperar por eles no ponto do ônibus no Ipiranga. Estava com meu carro. Eles não vieram. Fui para casa, porque naquele tempo não havia celular, nem nada para a gente se comunicar. Ao chegar em casa, desci com a mala de viagem nas mãos. A rua estava lotada de crianças e pais de vizinhos moradores dali. Todos me viram chegar e logo depois partir, quando em casa, meu telefone fixo tocou e o combinado foi reafirmado. Fomos. Não pegamos praia. Não passeamos. Não nos divertimos, porque a coitada da esposa do amigo estava com crise de dor: metástese de um câncer que a dilacerava por dentro. Ela gemia e chorava, nem morfina adiantava. Foi um absurdo aquele homem levar a mulher tão mal assim a um passeio que ela não queria. E nem poderia vivenciar. Voltamos pela manhã e poucos dias depois, a mulher morreu. Quando chegamos em casa, tudo revirado, portas abertas, polícia na porta. Muito assustada, recebi a notícia de que minha empregada não mais viria trabalhar naquela casa, tão pouco segura. O que eu poderia fazer com uma criança pequena e trabalhando tão longe de casa? Nem me importei com objetos roubados. Tempos difíceis. Pus a casa à venda. A intenção era comprar outra na periferia da zona leste e começar vida nova por lá. Só consegui vendê-la muitos anos depois.

LIÇÃO DE VIDA: A experiência me mostrou depois e antes que não adianta mudarmos de casa, porque nela a gente fica pouco. Passamos muito mais tempo fora dela e estamos sujeitos a assaltos por toda parte.
O QUINTO
Estava numa agência do Banco Mercantil. Um dia ele existiu. Uma fila enorme. Sempre tive problemas auditivos, nunca foram tão fortes como na atualidade, mas já eram reais naquela época. Observei que todo mundo parou de trabalhar. Ficaram quietos. E eu comecei a ficar irritada. Tinha pressa, queria ir embora e aquele povo sem querer trabalhar. Saía do meu lugar, me mexia, enquanto todos ali estavam como que paralisados. Esticava o corpo, (sou baixinha), esticava o pescoço, pontinha dos pés e nada via. Todos quietos. Silêncio mortal. Só me dei conta do assalto ao banco quando um deles apontou a metralhadora direto na minha direção e avisou: “ Ou fica quieta ou te mato”!

LIÇÃO DE VIDA: Não queira ser a diferente num grupo de iguais. Acompanhe a manada.

O SEXTO
Meu primeiro carro foi um Volks, creme, novinho em folha. Comprei uma trava de segurança, que me acompanhou por outros carros, que fui trocando, até chegar no GOL GI vermelho, teto solar, aerofólios, um monte de frisos em preto destacando a cor original, lindo de viver! Saí do estacionamento do colégio acariciando a trava de segurança e conversando com ela. Agradecendo por sua lealdade durante todos aqueles anos, protegendo o meu bem móvel. Cheguei na Lapa por volta das três. Deixei o carro na Gomes Freire e fui ao Banco do Brasil. Demorei um bocado. Filas enormes. Ao sair, vejo um carro muito semelhante ao meu. Nossa, que coincidência... Era o meu! Não, estou enganada, afinal eu colocara a trava. Ao chegar no local da memória não estava mais onde o deixei. O seguro me deu dinheiro para comprar outro. Tinha vendido minha antiga casa numa época imprópria, pois era o período de urvização, um seguimento do plano real. A sociedade passou pelo processo, menos nós, funcionários públicos municipais, que não tivemos nenhum tipo de reajuste em nossos salários. Tinha uma dívida para pagar da casa nova, diferença de preço por algo melhor. Foram meses de fome. Não conseguia estar em dia com minhas responsabilidades. O dinheiro foi muito bem vindo. Quitei a casa. Fiquei quase um ano sem rodas nos pés, andando de ônibus e de caronas. Dez meses depois do assalto, encontraram o meu chassi, mais nada. Agora, era um gol branco, totalmente modificado. Impossível reconhecê-lo. Se bem que até poderia jurar que o carro ao lado da janela que eu via era muito mais semelhante ao meu, que em minha memória já morria. Só que o proprietário “daquele”, me disse o funcionário, era o Delegado de plantão!

LIÇÃO DE VIDA: Nunca mais deixei nenhum automóvel em ruas desertas ou não. Eu sempre os coloco em estacionamentos pagos.

O SÉTIMO:  UM QUASE ESTUPRO

LAÇOS DE AMOR

Há sempre um ponto
Uma encruzilhada
Um banco
Uma esquina
Um lance de olhar
Uma gota de orvalho
Uma luz ao luar
Uma fonte a jorrar
Uma chuva constante
De lindas notas musicais
Onde o amor está!

Sou a filha do meio de um casal como poucos. Meus pais se amavam e não me lembro de brigas, muito menos desavenças por quaisquer razões. Só me vêm às lembranças muito amor, de ambos os lados. Cresci cercada de palavras de afeto e muito agarrada ao colo dele, a seus carinhos de proteção e ao seu jeitinho carinhoso de me dizer o quanto acreditava em meus sonhos e potencial. Pena tê-lo perdido tão cedo. Era menina quando Deus o levou para morar com as estrelas. Órfã de sua presença física, jamais vivi sem apego espiritual. Por esta razão mesmo adulta eu o tinha em pensamento e coração. Uma noite, após estudos em grupo, preparação de um seminário, saí sozinha do apartamento de uma amiga do pós-graduação que fazíamos pela PUC. O relógio marcava por volta de dez horas da noite. Oscar Freire, rua pouco movimentada de pedestres, mas com muito trânsito. Havia deixado o carro três quarteirões adiante e fui a pé, sem medo algum, já com as chaves na mão, pronta a entrar e ir de encontro aos meus filhos, que me aguardavam em casa. Foi então que atônita percebi três rapazes a me cercar. Rapidamente um pela direita, outro pela frente e um se adiantou e me ultrapassou na calçada ficando atrás de mim. Diziam palavras entrecortadas com obscenidades, dando-me a entender que pretendiam algo comigo apavorante. Num repente de defesa, corri para a esquerda, único fragmento de abertura disponível e atravessei a rua em meio ao trânsito, correndo desesperadamente, não sem antes, mentalmente pedir ajuda a Deus: “Pai, me socorre”! O semblante do meu Deus tinha a face de papai. Do outro lado da calçada, um carro claro, da Volkswagen, faróis acesos pronto para sair. Bati nos vidros com toda força que consegui e o motorista abriu a porta. Entrei. Pedi para correr. Não, não pedi, exigi, gritei! Ele me ouviu, obedeceu e só bem adiante é que parou, para me acalmar e, em Espanhol, pois nenhuma palavra entendia ou falava em Português, tentou se comunicar comigo. Pela lógica dos fatos, mostrando as chaves em minha mão, acabou voltando e me levando até meu carro. Acompanhou-me um bom pedaço e só desistiu de me ajudar quando observou que não estava mais em perigo. Cheguei em casa muito suada. Tomei meu banho. Um chá. Não conversei com ninguém sobre o fato. Apenas agradeci a Deus. Dois dias depois fui à casa dos padrinhos do meu filho mais velho. Já estava saindo quando minha tia me falou: “Noite passada tive um sonho estranho e rápido. Você atravessava a rua e seu pai a protegia com a mão em sua cabeça”. Nada consegui dizer. Só chorei. O amor tem laços que somente o coração consegue captar.

LIÇÃO DE VIDA: Confie em sua intuição, não pense somente por sua capacidade de raciocínio lógico. Deixe o coração falar mais alto.

O OITAVO: ASSALTO À MÃO ARMADA

Fiz muitas viagens para Campos do Jordão. Amava. Levava bordados e ia desenhando motivos artesanais de frutas, flores e animais. Sempre pedia o mesmo chalé de número 52, porque dali dava pra ver o por do sol ou as nuvens em fantasia, como se eu estivesse dentro de um avião, acima delas. Da última vez que fiz este passeio, levei apenas meu filho mais novo e deixei o mais velho sozinho em casa. Era a semana intermediária entre o Natal e o Ano Novo, fiquei cinco dias fora de casa. Só tinha um carro, e, é claro, viajei com ele. Deixei meu filho mais velho, portanto, sem rodas. No último sábado, ele, já com desejos de gravidez de dirigir, pegou o carro do vizinho e levou uma das amigas deles para casa dela. Lugar próximo de onde morávamos. Ao chegar no portão da garota, logo após ela ter saído do carro (graças a Deus), entrado em casa, meu filho foi abordado por dois assaltantes, ambos armados. Colocaram ele no banco de trás sob a mira de um revólver, tiraram todas as roupas dele: agasalho de frio, calças, camiseta, tênis, até meias, tudo novinho, comprado para serem usados nas festas de fim de ano, Deixaram-no de cueca. Cada vez que ele se mexia no carro, gritavam para não olhar, obviamente, tinham medo de serem identificados. Ao chegarem na trigésima terceira delegacia do bairro, jogaram-no pra fora do carro. E rindo, disseram: "Vá dar queixa"! - Humilhado, sem roupas, sem dinheiro, sem documentos, rolou pela calçada, bem em frente ao posto policial escolhido pelos bandidos. Audácia mórbida! Isto já faz mais de vinte anos! Mas ainda hoje me dói lembrar destes fatos. Quando cheguei de viagem, aquela notícia triste e pior, a bomba:  Os pais do amigo do meu filho vieram me cobrar pela perda do carro. Fui bem firme: "Não foi a mim que  emprestaram o carro e se meu filho tem alguma culpa, o seu também tem"! Eu  me comprometi de obrigar meu filho a pagar do salário dele por mês uma boa quantia para ajudar o garoto a comprar outro carro. Concordaram. Passados dois meses, o carro foi encontrado num desmanche, entregue ao proprietário, que veio em minha casa me cobrar financeiramente e também a presença do meu filho com ele, para procurar  peças em desmanches, afim de montar um novo Volks. Passei o maior sabão no rapaz, gritando o que eu pensava disto tudo: "Olhe, menino, vocês não devem fazer nada disto, porque estarão dando asas à corrupção do roubo, cujo objetivo é manter o mercado de peças roubadas. Juízo para os dois." Graças a Deus tiveram. Fui ouvida. Durante mais de um ano, meu filho pagou em suaves prestações um roubo de um objeto que nunca foi dele.

LIÇÃO DE VIDA: Roupas de marca jamais entraram em meu lar de novo. Amizade entre eles continuou tal e qual. E não se dirige carro dos outros. Cada um é responsável por seu próprio bem.

O NONO:  ASSALTO À MÃO ARMADA
Ainda me lembro de quando o comprei. Meu primeiro carro zero. Um FORD K.  Vinho, minha cor predileta. Era lindo! Final de ano, começo de novembro. Provas em andamento, diários de classe prontinhos para serem encerrados e um projeto:  “De Olho no Fonte”, uma revista.  Organizara os alunos da sétima série em grupos, jornalistas mirins, fizeram entrevistas, à escolha deles, tema e pessoas importantes. Tiraram fotos. Eu mesma editei os trabalhos usando um site especial da Internet. Estava saindo de casa mais cedo para um encontro com o responsável por uma gráfica para fazermos ajustes de preços para publicação. Uma reunião importante no colégio. Saí despreocupada e já no meio da garagem, metade do carro pra fora, uma outra parte para dentro, o indivíduo chega, encosta a arma na minha nuca. Aquele cano gelado e duro me fez retrair e o carro morreu. O assaltante me deu a ordem: “Vá para o banco de passageiro” – Tomou o meu lugar na direção e saiu cantando pneus. Estava chovendo. Eu lhe entreguei a bolsa e todos os pertences, menos os diários de classe e o meu projeto. Pedi, não, implorei para que me deixasse ficar com este último material. Dizia que era professora, que se levasse os diários poderia prejudicar meus alunos. Eu queria ser justa com eles e com seus crescimentos individuais. Não sei se falei demais e o irritei, ou se toquei as notas certas de uma velha canção de amor. Eu sempre amei minha profissão. A certa altura parou o carro, jogou em minhas mãos a pasta que pedira, me deu o guarda-chuva para que eu voltasse pra casa sem me molhar e ainda confessou: “Não chame a polícia, vou deixar seu carro ruas abaixo desta”. Não obedeci e chamei a polícia, mas uma hora depois, meu carro foi encontrado ruas abaixo da minha. A reunião aconteceu. A diretora conseguiu uma parte do dinheiro através da Diretoria de Ensino, outra parte retirou dos gastos normais da escola. A revista aconteceu, quinhentos exemplares foram impressos. Fizemos a noite de lançamento, com a presença de todos os alunos jornalistas, seus pais, amigos, familiares. Eu mesma levei nora, filhos e neto. Houve um show de violão com professores e alunos, que frequentavam a oficina de som. Petiscos e refrigerantes numa bela mesa para todos degustarem. Aconteceu um pequeno discurso de agradecimentos. Alunos falaram, a diretora e eu também. Ao final, o Presidente do Conselho de Escola pediu a palavra. E em lugar de homenagear ou investir em palavras de encorajamento ao futuro do projeto, ameaçou levar a diretora, o coordenador da Diretoria de Ensino e a mim para um processo jurídico, porque os gastos não haviam sido feitos de forma correta e não foram passados pelo Conselho de Escola. Eu não chorei pelo assalto, mas chorei demais por esta traição, porque a primeira pessoa a quem pedi ajuda para viabilizar a Revista foi para ele. Negou-se para depois me ameaçar em público. Resultado: o segundo número jamais aconteceu e nunca mais por lá houve alguém a fazer uma revista. 

LIÇÃO DE VIDA: Aquele jovem tinha coração e amava suas ex professoras. Nem sempre a gente se dá mal quando confessa a própria profissão! Mas com colegas de trabalho, às vezes a traição é fatal.
O DÉCIMO
Sábado à tarde, saindo do Banco Itaú, onde fui pegar trocados para o final de semana, deixei meu carro em frente ao PET, onde levava meu cãozinho para o banho semanal. Quando acontecia de me demorar a ir buscá-lo, tocava a campainha ao lado, onde os donos do comércio moravam e eles me atendiam. Portanto, o cachorro raivoso me conhecia, mas jamais pusera os pés para dentro da casa fortemente vigiada por ele. Naquela tarde, ao sair do Banco, já na volta, dei de cara com um motoqueiro, que imediatamente deu uma volta em ré, quase caindo da moto e veio em minha direção sobre a calçada. Outro deles, chegava em direção oposta. Corri feito louca antecipando o assalto, abri o portão da casa dos donos do PET e o cachorro bravo veio com tudo. Fiquei espremida entre a cruz e a espada. Minha força e minha fé na vida me deu o olhar direto para os olhos daquele cão. Ele não me atacou, mas assustou os meliantes.

LIÇÃO DE VIDA: Na dúvida, confie mais no cão do que nos homens.

O DÉCIMO PRIMEIRO: ASSALTO À MÃO ARMADA
Parei o carro, o tal FORD K, em frente a uma lojinha de materiais de papelaria. Do outro lado da rua, em frente à Lavanderia, numa rua paralela de onde moro. Fiquei muito tempo parada no balcão escolhendo cores diferentes de cartolinas. De repente, sinto no pescoço algo gelado e uma mão trêmula. Era um meliante armado me dizendo ser um assalto: “Entregue a bolsa”. Gritei: “Que brincadeira é esta? ” – Mas não era brincadeira, além de minha bolsa, levou tudo o que estava no caixa da papelaria. Saiu correndo, com as calças caindo, por conta de um zíper aberto. Eram os dois bem branquinhos e um deles, com carinha de menino bom, de óculos. Mais parecia um intelectual. Viraram a esquina e eu corri para o meu carro, pois as chaves ficaram em minha mão e fui atrás dos ladrões. Até hoje não sei o que faria se os alcançasse. Só sei que entraram ambos num corcel marrom e dispararam pelas ruas do parque onde moro. Fui direto para a Delegacia e lá encontrei pessoas da Lavanderia, afirmando que foram assaltadas pelos mesmos caras e que uma das garotas fora estuprada por um deles.

LIÇÃO DE VIDA: Nunca mais me demorei para escolher o que quero. Sou rápida e também não entro em lojinhas de garagens, sem nenhuma segurança para o consumidor.

O DÉCIMO SEGUNDO: ASSALTO À MÃO ARMADA
Não sei de minha existência aqui sem ela. Quando eu nasci já tinha dois anos. Sempre cuidou de mim e eu a tinha como minha melhor amiga.  Confidente. Quando minha irmã morreu, fiquei sem chão, sem ar, sem norte. Trouxe minha mãe para morar comigo e ia duas ou três vezes por semana cuidar das plantas delas. Abrir as casas, deixar o sol entrar. Quem sabe não me faria a dor passar! Numa destas visitas costumeiras, criei coragem e escolhi tudo o que mais amava nos objetos pessoais de minha irmã. Enfeites, bibelôs, pijamas, lingeries, roupas de cama e mesa. Uma bíblia e uma correntinha de ouro marcando suas últimas leituras bíblicas, aquilo que minha irmã lera dias antes de fechar os olhos. Palavras grifadas falavam do sopro da vida e da chegada da morte. "Para tudo há uma ocasião certa. Há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz". (Ocasião Certa - Eclesiastes 3:1-8) Peguei tudo e arrumei direitinho dentro do porta malas do meu carro. Cheguei em casa muito tarde, tempo suficiente só pata almoçar e levar minha mãe ao médico dela na Vila Cursino. Subi com a bíblia e a correntinha de ouro marcando o que havia lido no quarto de minha irmã falecida. Pensei em dar aquele presente ao meu sobrinho, filho dela. Os outros objetos eu, mais tarde, na volta, pegaria para guardá-los em minha casa. Tão logo chegamos ao consultório médico, minha mãe desceu do carro e eu também. Com a chave na mão tentava fechá-lo, quando três moleques, menores de idade, sem dúvida, me abordaram e um deles encostou a arma em minhas costas e me obrigou a dar as chaves. Enquanto fugiam cantando pneus, minha mãe desmaiava e eu desenhava  na memória cada curva de um dos moleques que se sentou em cima dos exames médicos, que minha mãe fizera e que seriam usados em uma cirurgia. Estávamos próximos do apartamento em que meu irmão morava. Telefonei pedindo ajuda. Estava sem dinheiro, sem documentos, sem carro e sem chaves para voltar para casa. Minha sobrinha atendeu o telefone e me disse de forma lacônica e infeliz: “Tia, hoje não posso fazer nada, estou muito ocupada por conta de minha viagem aos states” – Respondi que não poderia sair dali sem fazer BO, alguém precisava levar a vó de oitenta anos para a própria casa, porque minhas chaves foram roubadas e ela, nem sequer poderia entrar na minha. Ao que ela prontamente resolveu: “Tia, pegue um táxi, coloque a vó dentro, mande-a para casa e peça a uma vizinha para pagar o táxi, ficar com ela, esperando por você”. É, foi bem assim, descobri que nos momentos de stress é que conhecemos a alma das pessoas. Telefonei aos meus filhos e ambos chegaram, bem mais tarde, já que nossa casa era distante. O mais velho levou minha mãe pra casa e o mais novo foi comigo ali no bairro fazer um BO. O primeiro voltou para me levar de volta à minha casa. Mas no meio do caminho, fomos avisados que encontraram o carro dentro da favela Heliópolis e que os menores estavam na Delegacia para serem reconhecidos por mim. Voltamos. Eu já fazia planos de alegria por rever os objetos amados e que representavam meus melhores momentos com minha irmã. Qual não foi minha surpresa quando me deparei com o carro, ou melhor, com os restos mortais do meu carro. Totalmente depenado, mais um dia e ele não mais existiria. Batido em todos os cantos, pois na correria para afastar a polícia e fugirem ilesos foram raspando o carro entre as ruas pequenas e lotadas de dejetos da favela. Os moradores deram fim a todos os objetos amados de minha irmã. Só deixaram os exames de mamãe. Já na Delegacia tive que me deparar com um exército de pessoas que ali estavam para proteger os meliantes. Ao todo, oito pessoas, entre pais de cada menor, um advogado e um homem negro, alto, forte, que me olhou como se eu é que fosse a ré e não a vítima. Eu os reconheci, com toda certeza, mas me acovardei diante do assédio moral que o olhar daquele homem imprimiu sobre mim. Coloquei na boca a palavra “NÃO” e voltei para minha casa, completamente infeliz.

LIÇÃO DE VIDA: Não se deve confiar em ninguém, pois só em momentos de grande stress é que conhecemos quem realmente está do nosso lado para o que der e vir.
 
O DÉCIMO TERCEIRO: ASSALTO RELÂMPAGO
Meu filho mais novo estava doente. Tomava remédios. Tinha se atrasado com o horário. Telefonou para mim me avisando que chegaria logo, para não me preocupar, pois não esquecera o horário do antibiótico. Estava num cruzamento da Francisco Matarazzo, em direção à Ponte de acesso à Marginal Tietê. Calculei que chegaria por volta de meia hora. Onze horas, meia noite e nada. Comecei a orar: "O Senhor é o meu pastor, nada me faltará." Foi abordado por outro carro. Jogaram-no no banco de passageiros.  "Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas". Na verdade, o carro usado era de um senhor também em sequestro relâmpago em andamento. "Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome." Ambos foram levados aos respectivos bancos e os obrigaram a sacar dinheiro, depois jogados dentro de um barraco de uma favela, amarrados, de olhos vendados, de sorte que nada puderam visualizar do trajeto, só um mapa visual de curvas e entradas, que de nada ajudaram, pois, a memória é fraca quando o stress é maior. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam." Eu, em casa, calculava e recalculava o tempo. Impossível esta demora. "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda."  Por que ele não atendia o celular? Mais de trinta ligações que eu fiz no desespero de mãe, que tem intuição da verdade. "Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias." A certa altura comecei a orar de joelhos ali mesmo em minha cozinha: "O Senhor é meu pastor " Depenaram os dois carros de bancos, step, objetos pessoais. "E nada me faltará". Devolveram o carro do meu filho com o idoso atrás. "Deitar-me faz em verdes pastos". Ficaram com o Corolla do outro. Carro de maior valor do que o Celta. Meu filho levou o senhorzinho para o BO na delegacia e depois para sua casa e chegou de madrugada. "Amém"!

LIÇÃO DE VIDA: Quando todas as portas se fecharem, há uma que permanecerá aberta: a fé através da oração.

O DÉCIMO QUARTO: ANTEPENÚLTIMO ROUBO

A MEDALHA DE NOSSA SENHORA

Na caixinha de veludo vermelho
Cabem todas as lembranças
Tomar banho de caneca no fundo do quintal
Bater cara atrás das árvores
Acarinhar cãozinho de estimação
Sarar com beijos a dor do amiguinho maior
Guardar uma medalha de ouro
Sarar com saudades uma amizade sem fim

A gaveta jogada ao chão, casa todinha revirada, recibos destruídos da compra de um apartamento que nunca mais encontrei.  Quando vi meu quarto todo saqueado, a lembrança de minhas joias guardadas com tanto carinho dentro de um estojo de madeira, forrado de veludo vermelho, puído pelo tempo, foi a minha maior e grande perda naquele último assalto há doze anos atrás. Eu a perdi para sempre. Pensei com tristeza!  Ao pegar a gaveta para recolocá-la em seu devido lugar, desmoronou em cima do meu pé.  O grito de dor não foi maior do que a alegria de vê-la: Eis que brilha no ar uma medalha de ouro de dezoito quilates. Enroscada no cantinho da armação da gaveta, desabou pelo chão, em constantes cascatas de ouro ao brilhar dos raios de sol daquela manhã. Os assaltantes que entraram em minha casa, enquanto eu saíra para levar minha mãe à dentista, não conseguiram roubar de mim as memórias, muito menos a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima. Eis que me abaixo e a pego e a coloco entre meus dentes, para sentir seu valor, na mesma cena de meio século atrás, imitando sem querer um gesto de meu pai. - “Filha, onde foi que você pegou esta riqueza? Olha, tem até o valor do ouro em dezoito quilates. Com espessura e tudo”! – Olhei para ele indignada. Na ingenuidade dos meus sete anos de idade só existia a bondade, o amor e a amizade. Como assim “pegou”?  Eu a tinha ganho no recreio do pátio do colégio estadual José Carlos Dias, local onde aprendia as primeiras letras. Menina tímida, pouco falava, mas meus olhos diziam tudo. Na dança do brilho deles, só havia lugar para o amor. Meu pai chamou minha mãe e ambos discursaram um diálogo que não captei. Ninguém mais tocou no assunto, só percebi que ele, como sempre fazia, me defendia e minha mãe me acusava. Só soube do quê, alguns dias depois, quando conheci na escola, onde estudava, pais de uma amiga de carteira.  Naquele tempo sentávamos em pares. Eu adorava aquela companhia, que me ajudava nos estudos e na ampliação dos ingredientes do lanche. O dela era farto, o meu escasso. Minha mãe, a professora e aquelas pessoas falavam coisas que não conseguia entender. Daí ela chegou. Mara, não atoa, um anagrama de amar. Lá se vão mais de meio século de tempo em exaustão e tudo recordo com exatidão de fotografia. Menina linda, de óculos, alegre, dançando as pernas ao vento em sua saia plissada e cabelos em tranças. Parou ao meu lado e me beijou feliz, dizendo a todos simplesmente assim: “Meu pai é ourives e me deu permissão para presentear a minha melhor amiga com uma medalhinha de Nossa Senhora”.

LIÇÃO DE VIDA: Podem nos levar tudo em termos de bens móveis, dinheiro, documentos, mas não conseguem retirar do âmago da nossa alma, da memória, os ensinamentos que a vida nos traz.

O DÉCIMO QUINTO: PENÚLTIMO ASSALTO
Após conseguir colocar a casa em ordem, levei dias procurando documentos de pagamento de prestações de um apartamento ainda sem escritura, achei por bem mandar fazer grades nas janelas e um portão no quintal fechando outro acesso e blindando a porta da cozinha. A casa estava muito vulnerável. Fui atrás de um serralheiro, na pressa qualquer um servia. Contratei no tapa. Ele pediu seis mil reais em três cheques pré-datados, não nominais, para que pudesse trocá-los por mercadorias com os fornecedores. Minha mãe me alertou: “Você não tem medo de dar tanto dinheiro assim a um desconhecido”? – Respondi, zangada, que sabia o que estava fazendo. Não sabia, nada de nadinha. Um mês, dois meses. Nenhuma grade entregue. Resolvi fazer pesquisa sobre o tal serralheiro e descobri que tinha várias passagens na polícia por estelionato. Trabalhava com os cheques das pessoas, ia a um agiota e conseguia o dinheiro vivo, trocando os cheques de pessoas idiotas, como eu, pelo natal que desejava ser mais farto. Fiz um BO na delegacia, abri um processo judicial e sustei os cheques.  Um já havia sido quitado. Este, perdi para sempre. Outro estava com um agiota, policial aposentado da Polícia Militar, que tinha uma mansão, em Osasco. Este me ordenou que fosse quitar o cheque, pois que ele tinha meios de me fazer pagá-lo por bem ou por mal. Pedi a um professor de minha escola para ir comigo buscar o cheque devolvido. Ele não pode entrar, só eu, que fiquei presa num elevador de passagem da portaria ao escritório do agiota. Só a blindagem daquele ser já era tudo de ruim que alguém pode sofrer como assédio psicológico. Seguranças pra todo lado. Entrei, paguei, peguei meu cheque e fui embora, com a exata impressão que estava sofrendo um novo golpe, um assalto pior do que aquele que ocorrera antes. Quanto ao terceiro, decidi seguir os trâmites judiciais e ir até o fim do processo.  Só consegui reaver meu nome limpo após sete anos e apenas um mil e quinhentos reais de volta, só que uma parcela ficou para meu advogado. E as grades e o portão? Paguei para outro profissional, bem mais competente e honesto, que tudo fez por menos de um terço daquele outro valor, ou seja, além de negociar porcamente os meus cheques e meu nome, o serralheiro ladrão também superfaturou a obra.

LIÇÃO DE VIDA: Nunca se apresse a resolver os problemas após um assalto, pois outro pode se acavalar em seu lugar.

O DÉCIMO SEXTO: O ATUAL,
QUE PELO RUMO DOS FATOS, NÃO SERÁ O ÚLTIMO
Há pouco mais de dois anos atrás, meu vizinho do lado foi viajar e deixou chaves com alguém de sua confiança para entrar na casa e cuidar do cachorro. Abri-la, fazer de conta que tinha gente nela. Ladrões tentaram entrar, mas se deram mal. Fugiram sem nada levar. Cego de raiva, o proprietário armou-se de uma cerca, que só se vê em penitenciárias. Minha casa está horrível. Dá a impressão que há o que se temer por dentro dela. Passei a deixar as primaveras mais altas, para cobrir aquela cerca que me faz muito mal só de olhar. E que não protege ninguém, pois, nem bem passaram dois meses, os meliantes voltaram, aproveitaram uma brecha no portão da garagem para pegar um pintor, que estava a trabalhar ali, amarraram-no com a empregada dentro do quarto do segundo andar e limparam a casa. Minha câmera os pegou, mas a polícia não conseguiu desvendar os fatos. O vizinho colocou a casa à venda. Lá se vão mais de dois anos e não conseguiu vendê-la. Sei por mérito que não adianta vender um bem para fugir de roubos. Eu me cuidava apenas com um terço benzido pelo Padre Antônio Maria e me ofertado de presente por uma amiga, que se indignara com tantos roubos e assaltos contra mim. E, algum tempo atrás, argumentei com meu filho que achava brega aquele terço no carro:  “Não, filho, não se trata do objeto, mas do fato em si, da intencionalidade. Este terço me protege”. De certa forma, tudo poderia ter sido pior, mas aconteceu. Cheguei em casa faminta, doida pra comer algo pois já eram duas horas da tarde de um sábado. O portão eletrônico está quebrado. É necessário abrir e fechar com o cadeado. Saí do carro, abri, entrei dirigindo e quando já estava com o portão praticamente fechado, dois assaltantes me renderam. Ainda entrei em luta corporal com eles, eu com força fechando o portão por dentro e eles tentando abrir por fora. Até que estava tendo sucesso, só que um terceiro se aproximou com arma em punho. Expressão maligna. Cedi. Entraram e enquanto um deles, cheirando a álcool, tremendo muito, pálido em sua parda cor, encostava o cano da 38 em minha nuca, e, bem próximo a mim dizia coisas que nem consigo mais pensar: “Não me custa atirar, não grite” – um outro me amarrava os pulsos na escada mesmo. Minha cachorra latia muito e eu orei para que meu companheiro não saísse de dentro de casa. Deram um pontapé na Vareta.  E eu não mais a vi. Quando fui levada ao quarto, já tinham feito meu marido de refém, jogado ao chão, o homem pardo agora tinha a arma na nuca dele e um dos pés pisando-o. O outro meliante o amarrou também. Em menos de dois minutos, levaram tudo o que quiseram dentro do meu Peugeot. As câmeras de um vizinho mostram bem que durante todo o assalto, um savero vermelho, de rodas amarelas,  fazia cobertura. Meu carro foi encontrado uma semana depois. A pista foi um radar, mostrando meu carro sendo dirigido por um meliante e sua namorada. Presos em flagrante, fui chamada para reconhecê-lo, mas não consegui em minha memória traços iguais ao do rapaz pego. Penso ser o assaltante que dirigia o carro vermelho. que acompanhou o assalto. Foram vários prejuízos financeiros e emocionais. Mas o pior deles foi a postura do meu marido, que impôs a regra. Ou saímos desta casa, ou saio eu, sozinho. Ele se foi. 

LIÇÃO DE VIDA:  Só conhecemos as pessoas que nos cercam em momentos de extremo stress. É neste instante que as máscaras caem.

Liz Rabello

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


CAMPANHAS ELEITORAIS


Há muitos anos atrás levei meus alunos de quinta série ao Pico do Jaraguá. Subimos o morro a pé. Lá no topo, em meio às últimas dificuldades extremas para alcançar o mais alto do morro, uma garota posta-se numa pedra, em equilíbrio e, ironizando, imita a voz do Maluf e começa um belo discurso, sintetizado pelas seguintes palavras: "Vote em mim que vou asfaltar todas estas pedras e ninguém mais vai sofrer para escalar este morro." Moral da história: Absurdos são as promessas dos políticos em prol de uma campanha. Pior dos absurdos é ter quem não perceba até o que uma criança é capaz de desvelar.
Liz Rabello
Fotos de Nicholas Betoni



MEDITAÇÃO INICIAL

Deixe seu cérebro descansar
Faça-o se aquietar, silenciar
Sinta tua respiração
Ventar apenas a gratidão

Nada de sofrimentos
Nem de sentimentos
Deixe fluir a imaginação
Palpitar o coração
Sons ao mar de uma canção

Liz Rabello

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

VOAR NÃO VEM DA ASA
VEM DO POUSO
DO DESEJO INSATISFEITO DE SER CASULO


SABEDORIA DO OUTONO

Meu Eu... Casulo amordaçado 
Fios de sonhos perdidos 
Atados a noites escuras 
Gélidos invernos de dor 
Lápides frias de cemitérios!

Meu eu... Casulo cinzento
Semente de amor escondida
À procura de terra fértil
Água límpida de nascentes
Manhãs de sol primaveril!

Meu eu... Fruto maduro 
Macieira perfumada 
Outono esquecido no tempo 
Preso às malhas do destino 
Sem razão para existir!

Esquece teus finais 
Hora de recomeçar 
Borboletas frágeis, 
Em margaridas a dançar 
Sangra arestas, cria pontes!

Voa, voa, voa! 
Livre... Solto 
Liberdade conquistar!

iz Rabello (In INTERVALOS, 2013, Beco dos Poetas)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017


Às vezes ouço passar o tempo e só de ouvi-lo passar vale a pena ter nascido!
Fernando Pessoa

O pêndulo emite sons
O sol caminha de leste a oeste
As rajadas de vento apontam o fim do dia
As estrelas trepidam na escuridão
Que se avizinha
Horas passam devagar
Água morna na cozinha
Mesmice de sempre
Nada a mudar
Mas mesmo assim
A prece em gratidão
Formiga nas palavras
Vida, vida vale a pena te escutar!

Liz Rabello
POEMA A TRÊS MÃOS...  AMIZADE SINCERA 



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Versos só pra ti - Liz Rabello e Sandra Gomes Leal

MINHA QUERIDA SANDRA GOMES LEAL, ARRANJOS E VIOLÕES: FRANCISCO XAVIER E RONALDO FERRO, DA DOCE CASA AMARELA, MUSICARAM MEUS VERSOS.  QUE FELICIDADE! <3



O TRIO SILVIA MARIA, INÊS SANTOS E ROSINHA DE MORAES DECLAMARAM "MIL PEDAÇOS" DE LIZ RABELLO


 MIL PEDAÇOS

Me fiz em mil pedaços
Pra você me decifrar
E de novo me montar
Quebra cabeça de desejos
Paixões desnorteadas
Estilhaços de esperanças
Paredes quebradas
Jogos de faz-de-conta
Vazios nos cantinhos
Invisíveis do olhar!

Me fiz em mil pedaços
Pra você tentar juntar
Peças que não se encaixam
Antíteses paradoxais
Cores que não combinam
Com aurora ou entardecer
Viagens sem futuro
Sem passado a entender!
Um presente recortado
Em filetes de amanhecer!

Me fiz em mil pedaços
Pra tentar me disfarçar
Que todinha me mostrava
E assim posso enganar!
Se quiseres me achar
Os pedaços encontrar
Basta apenas um por um
Sentimentos vir colar!
E não hás de me achar
Porque o meu Eu dentro de ti
Sempre perdido a te sondar!

Liz Rabello (In Mil Pedaços, Editora Beco dos Poetas, 2012)


 

Versos só pra ti

Meu coração não é ilusão
De uma folha de papel
Onde alguém escreve o que quer
E vira a página sem saber como o deixou

Meu coração não são folhas levadas ao vento
Outono perdido no tempo
Descolorindo as árvores, galhos secos
Verde-marrom colorindo o chão

Meu coração são bolhas de sabão
Explodindo ao vento
Ilusão de beijos
Tocando o ar com desejos

Meu coração é um campo aberto
Borboletas girando, voando
Perfumes de rosas te amando
Ao som do universo flutuando

Não o destrua,
Não deixe esta cadeira vazia
Cadê você?

domingo, 27 de agosto de 2017


RESPOSTAS

Há uma revolução com armas
Há outras entre falsas religiões
Outras mais com ironias veladas:
Charges, desenhos, metáforas
Alvos merecidos: ovos, tomates
Papéis de dólares falsos
Em corruptos jogados
Outras nas ruas
Cartazes e multidões iradas
Andando cantando
Desatando nós
E se enrolando em vozes
E há esta: costurando dores
Afiando facas certeiras
Com palavras em vômitos
Jatos em páginas
Privadas dentro de livros

Escolha, é tua a opção!

Liz Rabello