MICRO CONTOS

MINI OU MICRO CONTOS


AMENDOINZINHO

Felipe ou Júlia? Seja bem-vindo, amorzinho! Teu ser já grita fome de vida no ventre da mamãe. E os olhos dela já marejam de alegria ao leve lembrar que tu és ainda um pequeno amendoim... E como é que podemos amá-lo tanto assim?
Liz Rabello


SANTINHA DA VOVÓ

Minha princesa cruza os bracinhos para se fingir de "santa" e ainda me faz um elogio: "Mamãe a casa da minha vovó é muito arrumadinha" - Ao que a mãe retruca: "E você vai desarrumar?" - "Hoje, não"!!!!!!!!!! E cumpre a promessa. Só que a vovó aqui fica descadeirada de tanto jogar bola com ela no quintal.

Liz Rabello




VAMOS JOGAR OVO?

Juju fez carinha de "santa" e quis brincar de jogar ovo. E foi daí que eu me assustei! Correu pra me mostrar o que era. Uma bola de futebol americano. Jogamos um tempão. Haja fôlego, então!
Liz Rabello


FURACÃOZINHO

Juju é um furacão. Logo que chega por aqui já vou tirando os enfeites que quebram, principalmente meus "cozinheiros" do armário da cozinha. E ela reclama: "Bovó, por que você faz isto"? - Às vezes se antecipa a mim e ela mesma começa a tirar, já falando: "Vou te ajudar para eu não quebrar".

Liz Rabello


A MELHOR DO DIA

Fizemos o almoço a quatro mãos e ela me disse que meu tempero tem pouco sal, o que é verdade. E que eu não sei fazer laranjada. Que não era pra usar tantas laranjas, mas sim colocar água. Quando respondi que as mesmas já estavam murchas e deveriam ser aproveitadas, calou-se. Mas não por muito tempo. A melhor do dia foi quando brincamos de contar um, dois, três...  Dedinhos da vovó. Contava e olhava atentamente para minhas mãos: “Puxa, vovó, como elas estão murchas” Ahhhhhhhhhhh! Juju, Pimentinha!
Liz Rabello


JUJU PIMENTINHA

Quando decidimos que eu contaria histórias foi um tremendo ritual, desde a escolha do livro à arrumação das bonecas em círculo. E eu tinha que me sentar no chão. O livro escolhido por ela em sua estante pessoal era uma história desconhecida por mim de um homem “asqueroso”, que jogava lixo no mar. Comecei a ler para elas: Minha neta e suas filhinhas.  – “Juju, você sabe o que significa asqueroso”? – “Não, não sei, mas este homem é”!  - E você, vovó tem que fazer cara de nojo, assim, ó” - E me mostrava aquela carinha linda, que jamais demonstraria nojo, de jeito algum. De repente zangou. Como não entendesse o porquê, logo explicou:  “Vovó, você tem que contar e mostrar as fotos, não pode ler” - “Não é assim que se faz”! - Como não conheço a história, contei do meu jeito e ela retrucou: “Você não sabe ler, vovó” Pois é, fui duramente castigada por suas críticas. “Vou te ensinar” - Foi sua frase predileta. 
Liz Rabello


A LOBA NA FLORESTA DA JUJU

Juju está muito sapeca. Exageradamente ligeirinha. Ontem passamos o dia juntas. Brincamos de passear na floresta enquanto seu lobo não vinha. O lobo, ou melhor, a loba, era a Vareta, a cachorra vira lata de olhos doces e meiga, que faz tudo o que a Juju quer. E me deixava levantar as orelhas e dizer: Pra que servem estas orelhas? - É PRA TE OUVIR MELHOR!   -  E estes olhos grandes? - É PRA TE OLHAR COM AMOR. - E este focinho travesso? - É PRA FUÇAR NAS TUAS COISAS! - E esta boca grandona? - É PRA COMER TUA MAÇÃ!!!!!!! E Juju fugia e comia a maçã com alegria. 
Liz Rabello



VARETA É UMA "GATA"

Vareta não só conversa com o olhar, como tem latidos diferentes para cada ocasião. Pra xingar outro cão que passeia pela rua quando está presa no quintal, o latido soa: "Seu bobão". Quando Rafinha chega: "Oi, vó" e quando o Rodrigo vai embora: "Udiguuuuuuuuu", um uivo soa pelos ares.
Liz Rabello



SÍNDROME DE POBRE

Quando os meninos eram pequenos, fui visitar meus tios e decidimos jantar fora. Fomos a um magnífico restaurante nos jardins. Cardápio diferente, original e muito cheio de xiliques. Saímos insatisfeitos. Já próximo da Rua Diana, nas Perdizes, virei a esquina em frente à padaria. Cheiro delicioso de pãozinho fresco. Olhei para o meu tio e decidimos no sorriso. Parei o carro, ele desceu e voltou com um montão de pão francês e mortadela...  Amei!


Liz Rabello


DINHEIRO

Era tão grande o valor que dava ao dinheiro, que se esqueceu da amizade, da dignidade. Vendeu o próprio caráter e ficou a ver navios, fora do mar e dos estaleiros. Agora, sem porto seguro, não tem mais como voltar.

Liz Rabello


CHUTE

Já chutava o balde, ou melhor, a barriga, antes mesmo de nascer. Hoje, dá cambalhotas, tropeça em sua própria vaidade, cospe pro alto e nem percebe que se lambuza de ódio.

Liz Rabello


DIFERENÇA

Uma de minhas alunas da primeira série não conseguia ler, vivia soletrando e com muita dificuldade suas leituras eram vazias de sentido. Uma manhã, atenta a sua vez, começou a soletrar “da”, não, “de”, não... " di... a..." e antes de terminar fez o sinal da cruz. Deste dia em diante superou seu deficit de leitura. O "diabo" fez a diferença!

Liz Rabello


QUEBRANDO COM AFETO

Todo mundo visita a chácara e carrega algo para a lata de lixo. Reclamei. Depois de alguns dias um pequenino de dois anos quebrou um bibelô. Em outra visita me trouxe um jogo novinho em folha e me disse todo feliz... "Olha, este aqui é para eu poder quebrar sossegado..." Pestinha!
Liz Rabello


TERROR NA MATA

Destino implacável. Ao som do barulho ensurdecedor, fugimos aflitos. Homens na mata, machados no ar, árvores tombando sem parar.

Liz Rabello




AMOR DE VIDRO

Certa vez, numa de minhas caminhadas pela Rua das Corujas, parei e não acreditei. Meu olhar de fotógrafa amadora extasiado: Não é que um casalzinho estava bem pertinho um do outro numa frenética busca de amor? E eu cliquei. Momento mágico! Beleza eterna! Minha corujinha flagrada em seu segredo solitário: Apaixonada por um bibelô de porcelana... E foi então que pensei: Sim, é possível, sim, o amor virtual! E meus versos criei e num livro palavras lacei.
Liz Rabello


SINFONIA

Antigamente molhava as plantas e lavava o quintal todos os dias. Tinha um visitante João de Barro, que vinha banhar-se logo após as poças d'água se formarem... Nunca mais o vi, após parar com estes gastos excepcionais e fazer a minha parte na economia do uso do puro ouro azul, tão em falta aqui em São Paulo. Hoje, vencida pelo barro que se formou com a pouca chuva de ontem, lavei o caminho até os fundos e meu visitante veio me agradecer. Trouxe os amigos... Foi uma festa! Sinfonia de cordas musicais dos meus amigos leais!
Liz Rabello


OS SAPATINHOS DA MOCINHA
Tenho o hábito de passar finais de semana na chácara e a Vareta fica com o Rodrigo. O novo apartamento tem piso de madeira e a nossa mocinha anda por lá como se usasse sapatos de salto alto e fino. O vizinho de baixo reclamou. O jeito foi comprar sapatinhos vermelhos e de lacinhos. Como eu quisesse ver, além das fotos, trouxeram os originais para eu conhecer. No granito da cozinha ela percebeu que se desse impulso deslizaria. E lá está minha menina brincando de escorregar na copa. Nem criança consegue ser tão arteira assim.
Liz Rabello



A BANDA PASSOU

A moça ficou.  Nem estrela brilhou. Uma tarde já idosa, surda, cega, sentiu o roçar de uma mão. Era João, pedindo esmola. Não só ganhou a coroa, como a cara e o coração. Naquele outono, na janela entre aberta, a cortina se fechou.
Liz Rabello


SER OU TER

Durante uma aula numa classe de sétima série, enquanto os alunos me falavam de seus sonhos para o futuro, um deles apenas nos declarou suas metas: "Não quero saber de estudar. Isto é perda de tempo. Quero ser traficante e já estou a desenhar os meus pauzinhos, porque ganharei tudo o que preciso ganhar para ter tudo o que pretendo ter em pouco tempo... Veja você, professora, o que ganha após tantos anos de trabalho?" - Respondi a ele que ganhava pouco, sim, mas que já era idosa e você já viu traficante ficar velhinho? - A pergunta ficou no ar e para minha paz o sinal bateu. A aula acabou! Não voltamos ao assunto, mas dias atrás soube que ele foi preso. Não adianta educadores, pais, professores questionarem a sociedade corrupta enquanto os valores são TER, TER E TER... É PRECISO SER... EXISTIR! Temos que buscar nova IDENTIDADE.

Liz Rabello

CAMPANHAS ELEITORAIS


Há muitos anos atrás levei meus alunos de quinta série ao Pico do Jaraguá. Subimos o morro a pé. Lá no topo, em meio às últimas dificuldades extremas para alcançar o mais alto do morro, uma garota posta-se numa pedra, em equilíbrio e, ironizando, imita a voz do Maluf e começa um belo discurso, sintetizado pelas seguintes palavras: "Vote em mim que vou asfaltar todas estas pedras e ninguém mais vai sofrer para escalar este morro." Moral da história: Absurdos são as promessas dos políticos em prol de uma campanha. Pior dos absurdos é ter quem não perceba até o que uma criança é capaz de desvelar.
Liz Rabello
Foto de Nicholas Betoni


COCHILO NO BANHO DE ESPUMA

Certa vez fui para Campos do Jordão e reservei um quarto só pra mim com hidro massagem. Fomos em cinco pessoas, dois casais em lua de mel, meu filho com a esposa e um amigo também acompanhado. Evidentemente que não queria atrapalhar os quatro em sua privacidade. Entrei e logo de cara, friozinho que só, tomei uma taça de vinho, abri a torneira e joguei o conteúdo de um saquinho na hidro. Peladinha da silva, tomei posse do meu prazer e confesso, bom demais, adormeci. Eis que acordo me afogando numa espuma que invadia o quarto e transbordava banheira afora. Desesperada, não conseguia desligar aquela coisa. Pus roupa rapidamente e chamei o serviço de quarto. Muito encabulada. Dia seguinte, café da manhã, o amigo do meu filho mostra fotos da noite. Quase morri!  Espumas pra todo lado e foi difícil perceber que no quarto ao lado, um casal teve o mesmo problema que eu.

Liz Rabello


ESPERAR NÃO É FÁCIL

Estávamos na Sala de espera do Laboratório Lavoisier. Aguardava os preparativos para fazer um exame de endoscopia. Minutos são horas. Tempo que não escorre. Para. A cena me levou para muitos anos atrás. Eu e o Rodrigo num ponto de ônibus. Esperávamos por uma condução que nos levasse até a Casa Verde. Francisco Matarazzo é passagem para vários bairros. Ônibus chegavam e partiam com a maior facilidade. Menos o meu, que não chegava nunca. A certa altura meu filho pequeno enlouqueceu de raiva. Esperneou pela calçada, me xingando em som alto e de bom tom: “Você é muito chata mamãe, fica escolhendo, nós vamos entrar no primeiro que aparecer” – Enquanto tentava explicar que não era bem assim, que não se tratava de escolha, mas de falta de opção, o tal ônibus aparece, novinho em folha. Claro que entramos bem depressa, após dar o sinal de parada e o veículo abrir suas portas para nos receber. – “Viu, você só estava esperando chegar um bem novinho!” – Gritou o menino todo feliz! Três quarteirões depois o acidente aconteceu. Saímos do ônibus batido e amassado aos berros do meu filho e pegamos um táxi. – “Puxa, mamãe, por que você não fez isto antes?”
Liz Rabello



QUE ABSURDO!

O filho de um amigo, com apenas dois aninhos, após ouvir minhas queixas contra as novas tecnologias e dificuldades de aceitação, repetiu ao pai, assombrado: "Que absurdo! Ela não sabe ligar a TV!"... E mais recentemente, em uma nova visita, o mesmo pai me dizia que Davi já tinha aprendido a ler. E eu: “Meus parabéns, menino esperto! Me diz, o que mais aprendeu”? A resposta veio feito bomba: "Escrever, pintar, desenhar... E você, já aprendeu a ligar a TV”? Pior que não!

Liz Rabello


 

AMAR SEM JULGAR

Meu filho teve um amigo gay, cuja mãe, testemunha de Jeová, o colocou fora de casa. O menino nos ligou três horas da manhã, porque estava morrendo de frio. Nós o acolhemos. Mas a mãe não reconsiderou. Foi morar sozinho. Morreu jovem e no enterro havia apenas uma coroa de flores, com as palavras cravadas: "Saudades de seu pai e irmãos". Ela chegou, olhou pro filho morto e não soltou nenhuma lágrima. Nem na despedida fatal percebeu o quanto é desprezível aos olhos de Jesus, que nos ensinou a amar sem julgar.
Liz Rabello


DISCUTINDO A RELAÇÃO

Ao se decidir pela compra de um casal de araras azuis esverdeados, carinhosos e apaixonados, minha irmã passou a vivenciar arrojos e barulhentos momentos de intimidade familiar de um casal enamorado. Ela, de um salto a outro na grande gaiola que a prendia. Ele, preocupado em confeccionar o ninho.  Bicadinhas de amor por todo lado, em todo canto que se roçavam, numa alegria ímpar! Tempo passou, ninho ficou pronto, a fêmea botou dois ovinhos, mas nada de esquentá-los, pois continuava a bailar pelos galhinhos improvisados da gaiola. Ferveu o tempo. Discutiram a relação. Ele chegou à conclusão.  Deu uma surra nela. Destruiu o ninho. Pifaram os ovinhos. Amor acabou. Ele morreu de tristeza e ela por muito tempo sozinha, decidiu que fêmea tem liberdade pra fazer o que quiser.
Liz Rabello


MENINA SAPECA

Juju veio me visitar e se soltou.  Esqueceu que tem medo de andar.  Pegou a vassoura com uma mão e com a outra panelas ao ar. Botou a Vareta pra fugir. Em lugar de andar, corria! Pisou na vasilha de água da cadelinha assustada. Sujou o vestidinho de comida canina. Não dava tempo de socorrer suas traquinagens, logo inventava outra mais grave pra fazer.


Liz Rabello
Juju pensando na próxima arte...  Raro momento de pausa do furacão...


LEMBRANÇAS E ENSINAMENTOS

Meu pé de goiaba não era só meu. À noite eu o dividia com as galinhas de plantão.  Durante o dia, sentava no melhor galho para ler minhas revistinhas e livros emprestados às prateleiras dos meus primos. Eram maravilhosos meus intervalos de lanches ou de almoço, entre o trabalho que ajudava a mamãe a ganhar o dindin do pão. Passava colas em fitas, que forravam caixinhas de papelão, para presentes em lojas de vendas.  Em meus momentos de lazer, corria para minha árvore predileta.  Ficava a ler o que podia.  Quantas risadas eu fantasiei por ali?  Quantos beijos de príncipes encantados ganhei?  Quantos sonhos alimentei?  Quando penso em volver o tempo, vou pra trás, muito tempo até o cacarejar das galinhas pedintes. Até oito, nove anos de amor aos meus livros, que na verdade nunca foram meus.  O que me restam são lembranças. Estas, ninguém as tira de mim. O que me restam são os ensinamentos, que a vida enfim veio me oferecer.

Liz Rabello


MÚSICA  DO CORAÇÃO

Conheci uma jovem que estava vivendo completamente nas garras da cocaína. Linda, inteligente, médica, recém formada, estava caindo na vida, descendo do muro da sapiência para a loucura do poço frio da morte. Em depressão, foi difícil conduzi-la para a noite de formatura. Agressiva, não aceitava carinhos, nem abraços, nenhuma demonstração de amor dos pais, irmãos e amigos, e, é claro, muito menos a internação para tratamento. Na última hora, resolveu comparecer à cerimônia. No final, tocou uma música de sua infância e ela, aos prantos correu para os braços dos pais. De lá foi para a Clínica, onde permaneceu durante seis meses em tratamento. Agora está bem... Se os pais soubessem o que faz bem aos filhos a música, o amor, a poesia, os livros e os afagos... Seriam os melhores pais do mundo.

Liz Rabello

LATA VIRADA

Minha cadelinha de estimação é uma tremenda “sacana”. Na minha frente é uma santa. Caras e lambidas de afetos. Vira-se de costas, não me vê e acredita que também não a vejo. Vira lata é o que é. Vive de lata virada!

Liz Rabello




A BARATA

Quando era menina e trabalhava na José Giorgi, tinha mania de me pendurar pelos braços entre duas mesas e balançar as pernas. Certa vez meu chefe me pegou no flagra. Que é que eu fiz? Gritei: Uma barata! Até ele fugiu!!!!!!!!!

Liz Rabello


BUMBUM NÃO É BOLA

Há muitos anos atrás numa sala de primeiro ano, tinha um aluno que todo santo dia dava um pontapé muito bem dado em uma bundinha fofinha da classe. Quando não em pênis. Todos já haviam passado pelo terror exposto. Uma manhã me deu a louca. Mostrei a parede e disse "Dê um pontapé aqui!" - Ele, que não era bobo, não queria obedecer, até que gritei. Deu um bem de leve. E eu berrei:  “Mais forte, mais forte”. Ele chorou, sentiu a dor e nunca mais deu pontapé em ninguém. Não só a classe passou a ser mais feliz, como ele também, que não mais significava o "pavor" aos demais. Até ganhou de presente uma bola de verdade. Por que todos os meus diálogos não surtiram resultados? Porque existem formas e formas de aprendizagem. Uma é ouvindo e aceitando, outra é convivendo e dialogando e inserindo as experiências alheias. Outra é a própria experiência e o sofrimento que ela produz.

Liz Rabello



UM ANJO

O microfone anunciava em alto e bom som:  “Última chamada para Passo Fundo”. E eu desesperada. Nosso voo atrasara por quatro horas e eu havia me mudado de lugar diversas vezes. Em algum canto deixara meu banner, com minha foto e capa do novo livro “Lua no Chão”, que calculava iria utilizar num lançamento, que deveria ocorrer em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. Não conseguia encontrá-lo. Pedia licença aos passageiros que aguardavam novos voos, e olhava por debaixo das pernas deles. Nada!  Foi então que a menininha me viu e se compadeceu de minha aflição: “O que a senhora procura?” - Ao ouvir a resposta me falou meigamente: “Vou ajudá-la” - E  ao se levantar do lugar, o rolo do banner caiu no espaço vazio que o banco deixou.  Realmente aquele anjo me ajudou.

Liz Rabello



UMA ARTE BEM GOSTOSA

Cidinha Paixão era uma pessoa “quadradinha”, toda certinha, que andava com Diário Oficial debaixo dos braços. Mas era boa de coração. E por esta razão foi unânime a adesão. “Vamos fazer para ela, nossa Diretora predileta, uma festa de aniversário surpresa”.  E fizemos.  A data caiu numa quarta-feira.  Aulas foram desmarcadas. Na surdina, ninguém abriu a boca para falar o que não devia e a surpresa realmente foi para nós.  No almoço, o prato servido foi Strogonoff de carne e frango para todos os gostos. Unidos, professores e funcionários fizeram algo para preparar a festa, desde bexigas a enfeites de mesa, que por sinal ficou linda! Trabalhei na cozinha e muitas batatinhas descasquei, cortei e fritei. Tudo pronto, meio dia e nada da Cidinha aparecer. Uma hora, duas horas, três horas... A fome aumentando e o estômago roncando. Fomos comprar mais batatinhas, porque elas é que estavam desaparecendo. Regadas à caipirinha, foi o que nos restou para conseguirmos fazer a espera durar. Alguém contratou a escola de samba do bairro.  Os músicos e as passistas chegaram. Samba rolou solto no pátio interno, todo fechado, para ninguém saber o que rolava por lá. Eu só me lembro que me sentei na escada e que tirei os sapatos e ensaiei passinhos de samba que jamais soube dançar. Foi neste dia que aprendi que se ficasse de fogo, o que faria seria sorrir.  Foi a melhor festa de minha vida.  Gargalhei gargalos de alegria! Cidinha não apareceu e nem soube se ela percebeu que no sábado seguinte a escola toda foi feliz da vida repor a comemoração de um dia de aniversário que não rolou.

Liz Rabello



TEMPOS DIFÍCEIS

Trinta e um de Outubro, à noite, por volta das dez ou onze horas, tocaram a campainha. Estremeci, ainda em pânico pelo assalto de dois meses atrás. Olhei para a câmera, observei um vulto adulto descendo a rua, pelo meio. Deduzi ser uma mulher por estar com roupa esvoaçante, talvez, pensei, uma saia longa rodada. Encostado ao meu portão, um vulto pequeno. Olhei pela janela da sala. Abri e perguntei quem era. Não consegui ouvir a resposta, mas saí correndo para atender, xingando meu filho, que deixava meu neto, sozinho, uma hora daquelas, me chamar pelo portão, sem sequer telefonar. Saí até sem chinelos, correndo, desci os degraus rapidamente e me assustei ao ver um moleque vestido de vampiro, com dentes postiços e pintado de preto nos olhos e sangue na boca. O pequeno de pouco mais de oito ou nove anos, com uma longa capa preta, só queria balinhas. Botei o moleque pra correr. Desejando que em lugar dele estivesse a mãe ou o pai para xingar os incautos de tudo quanto é nome de palavrões pelo descaso. Onde os adultos têm a cabeça?

Liz Rabello



CRIANÇAS DIFERENTES EM TEMPOS ESTRANHOS

Estávamos no Salão de Beleza. Uma cliente nova, com uma criança de dois anos. Muito sapeca. Com a ligeireza das artes infantis, a chupeta voou pelos ares, caiu ao chão e foi imediatamente colocada de volta à boca da menina, sem sequer ser lavada, embora o local não estivesse nada limpo.  Percebi a barriguinha grande da criança, sinalizando que não poderia estar saudável. Troquei olhares reprovativos com a dona do Salão e viramos a página. Às vezes é melhor se calar. A mãe continuava a se embelezar. Nada reprovável, todos estávamos ali para cuidar da aparência, inclusive eu. Foi então que a menina correu e pegou algo da mão da mãe, que imediatamente retrucou: “Me dá, senão te bato” – A menina continuou correndo e subiu no sofá desajeitada. Ambos voaram pelos ares. A mãe correu, derrubou a manicure. Esmaltes, água, acetona, tudo pelo chão, mas a mulher conseguiu o que queria. Salvou da queda... O celular, enquanto a criança se estatelava pelo chão!
Liz Rabello


A MELHOR PROFISSÃO: APOSENTADO

Quando fico longe do meu amor morro de saudades. Fui visitá-lo na sexta e no sábado. Não estava. Planos de fim de semana com o priminho e a madrinha. Quando liguei no domingo, e disse-lhe sobre minha gripe, ele respondeu sem pestanejar: “Vovó, tome um Benegripe e ponha uma máscara, quero te dar um abraço de saudades.” Adiamos para o dia seguinte e o abraço chegou com o comprimido para a gripe, sem a máscara. No meio de uma longa conversa na sorveteria, onde fiquei só olhando, perguntei a ele o que queria ser quando crescesse. A resposta foi irônica, mas verdadeira: “Um aposentado! Olhe que vida boa você tem vovó: não precisa se levantar cedinho, não tem que trabalhar e pode me levar à sorveteria!”

Liz Rabello 

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