DESAFIOS

DESAFIOS: POESIA DE ESQUINA


DESAFIO: VERSO

Versejar com o reverso
Do meu verso
É encontrar alteridade
Um outro eu em liberdade
Pra me alimentar
Ou me trair!
Liz Rabello (IN Poesia de Esquina/2017)


DESAFIO:  COBERTOR
Aprendi a me enrolar em meus braços
 e me aquecer de auto amor
 ao mesmo tempo em que desaprendi
 de viver sem o teu cobertor.

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)



DESAFIO:  PAZ

Eu te prometo
um banho de chuveiro
E toda leveza do pós amor
O relaxamento do teu corpo
Saciado de prazer do meu prazer
O perfume de erva doce
Aconchego de lençóis
Canção de paz pra se perder!

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)


DESAFIO: EXISTÊNCIA

Na re(existência) de mim mesma
Após tormentas
Percebo luz no fim do túnel
Será enfim a volta do ser não ser
Que me traduz
Ou será apenas o resistir ao fim de mim?

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)



DESAFIO:  DESAPEGO


É hora do desapego
Soltar as amarras
Libertar as correntes
Extravasar mágoas
Subornar vaidades
Desatar nós
Ao próprio Eu
Perdoar 
Filtrar emoções

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)
(Fotos de Noites de Luar de Liz Rabello)


DESAFIO:   AMOR

Desnuda tua alma
Amor não tem rótulos
Desnuda teu coração
Amor não tem cor
Desnuda tua fé
Amor não tem religião
Desnuda tua vivência
Amor não tem deficiência
Desnuda teus caminhos
Amor não tem fronteiras

Liz Rabello (In Poesia de Esquina/2017)


DESAFIO:  SAUDADE

Saudade é o que fica
No ponto curvo da esquina
Onde a paisagem desatina
A esfumar o perfil de quem partiu

Liz Rabello (In Poesia de Esquina/2017)


DESAFIO:  CHUVA

Chove saudades no meu jardim outonal
Pingos de amor
Pingos de dor
Liz Rabello (In Poesia de Esquina/2017)



DESAFIO:  CRACOLÂNDIA
Metrô, trem, Luz
Hotéis e muito chão
Para dinheiro ladrão
Que tal empurrar a multidão
Pra debaixo do tapete?

Da velha, da velha história
De que todo doente viciado é delinquente?
Que morador de rua é vagabundo?
Que a Cracolândia precisa ser empurrada
Pra periferia da periferia da periferia

Liz Rabello (In Poesia de Esquina) 

DESAFIO:  AMIZADE

AMI (Z) ADE
AMIGOS
ZEN
LIBERDADE

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)



DESAFIO:  MANHÃS

Meu eu... Casulo cinzento
Semente de amor escondida
À procura de terra fértil
Água límpida de nascentes
Manhãs de sol primaveril!
Esquece teus finais
Borboletas frágeis,
Em margaridas a dançar
Sangra arestas, cria pontes!
Voa, voa, voa!
Livre... Solto
Liberdade conquistar!

Liz Rabello In Poesia de Esquina
(Foto de Liz Rabello)


DESAFIO:  CAFÉ

Café
Cafuné
Poesia
Com café
Com cafuné
Café com poesia

No cheirinho gostoso do café
Pãozinho fresco na mesa da varanda
Manteiga, queijo, goiabada
Tão presentes em minhas manhãs outonais
Provam que desejos não realizados
Furam o tempo, tecem saudades,
Voltam, revolvem, são atuais!

Liz Rabello (In Poesia de Esquina)
OLHAR: Liz Rabello (SP) e Sandra Ribeiro (SP)

Entrego a teu olhar minha alma
Meu sorriso mais profundo,
Minha alegria maior de estar contigo.

Em nada tenho falta neste teu amar,
Preenche de acolhimento minhas manhãs cinzentas
Como flores entrelaçadas em um jardim
Perfumando o alvorecer dos dias meus.
Jamais sonhei com amor assim
Tão completo e tão faminto dos desejos teus.

Embriagar-me neste turbilhão de sensações,
Extasiar-me nesta torrente de emoções
Saciando minha essência em ser mulher.
Tua viril inocência em pó da terra

Cumplicidade extrema sem qualquer explicação.


AU A TRÊS NA PRAIA DE COPACABANA, POSTO QUATRO, REGADO À MÚSICA LOCAL, CANTORES E CRIATIVIDADE DO POVO CARIOCA...


REENCONTRO

Uma música
Um piano
Uma lágrima
Emoção na voz
Um vulto na luz

É passado!
A mesma luz
A mesma voz
A mesma emoção
Uma alegre visão
É presente!

Eis que descubro
Nas lembranças
do passado
a voz do presente
A dor que me encanta
A voz que me diz
Que o amor é a fonte
de toda ternura
A razão de viver!


Liz Rabello - Poema para Marilene Pacheco, (alguém que amei ao ouvir a voz, na penumbra do Museu Da Lingua Portuguesa, em 2013, sem saber que era Ela)

HORA CERTA

Um barzinho
Um violão
Boa música
Amigos
Amor
Tudo de bom
A brisa do mar
Sol gaivotas inspiração
A vida é o momento
É o aqui
O agora
A felicidade de estar
Vivenciando essa harmonia.

Marilene Pacheco


FOLCLORE

Meu netinho de mansinho
Veio dizer que é Agosto
Tempo de folclore a seu gosto
Imitando o Saci
Rosto pintado de carvão
Perninha suspensa em emoção
Atrás do sofá se escondeu
Assustou uma vovó
Que se fingia de improviso
Bateu a porta por querer
Até a maçaneta ceder
Depois veio como quem
Quer agradar pra valer!
“Vovó, quem decepou a perna do Saci?
Mula sem cabeça? Lobisomem?
Ou foi o bicho homem
Com as bombas dos judeus?
Ou foi o Iraque de araque
numa guerra por aqui?”
Como meus olhos marejaram
Me abraçou e comigo chorou
Que homem também pode,
Isto é o que me ensina o amor!

Liz Rabello


HOMENAGEM PÓSTUMA

RECORTES DA MINHA INFÂNCIA

Tenho janelas abertas do passado
Travas serenas prontas a me agasalhar
Saudades lindas e vibrantes
Momentos vividos na infância
Sonhos a me iludir no presente

A maioria das casas de nossa rua não possuíam ainda luz elétrica. Nós, sim. Mas o abastecimento era tão precário, que vivíamos apagões constantes. Éramos, então, obrigados a nos iluminar à luz de vela. Momentos lindos. Meu pai brincava de magia. Cortava o fogo com seus dedos ágeis e jamais os queimava. Depois pegava a vela e a levava ao caminho desconhecido do mundo dos contos de fadas: João e Maria... Perdidos na noite de lua escondida. O caminho iluminado pelo sol (vela acesa) era marcado na mesa da cozinha por casquinhas de pão. Eu fingia ser o passarinho que as pegava para levar ao ninho e dar aos filhotes o abençoado jantar. Os dois irmãos jamais conseguiram voltar, por conta de que eu passarinha as comia... Chegávamos a desligar a luz elétrica só para brincar de magia à luz de vela. Era tudo tão lindo e eu fico de novo feliz, só de lembrar. Quando a luz voltava não havia na mesa nenhum vestígio das casquinhas de pão abençoadas. Até hoje, amo este lance do pão francês. Sei que é vestígio de minha infância povoada de palavras, de sons, de sonhos, que meu pai carinhosamente me iludia.

Liz Rabello

DESAFIO:  TEMA DOR


A DOR DA DOÇURA

Por volta dos 9 anos de idade tomei Benzetacil. Não uma, nem duas! Um ano completo de doses mensais da maldosa. A dor começava nas vésperas do dia 18 de cada mês, afinal o momento inexorável se aproximava!
Chegado o dia do infortúnio, à tarde, íamos à farmácia e lá, a cantinela da dor se estendia sibilosa pelo balcão. Explico: é que eu girava ansiosamente o baleiro de forma angustiada, enquanto aguardava a minha vez de dar de frente com o verdugo, digo farmacêutico. E o baleiro ao girar, produzia um som de um flautim antigo, portador de uma dor tristonha, talvez precisando de graxa, coitado.

A dor visual se dava na revelação de quem seria o algoz da vez. Sim, pois às vezes eu era atendida por um farmacêutico de primeira, o dono do estabelecimento, e a dor só doía um pouco. Outras vezes, era um tal farmacêutico cuja cara não afinava com a minha cisma. Então, a dor era bruta.

A dor vinha também pelo ar. O cheiro da ferveção de seringas, era uma cheiro atemorizador de éter, num tempo em que nem se cogitava a existência de seringas descartáveis. Impressionava bastante. A dor ardilosa me enlaçava por todos os sentidos: no olfato, na audição... E quando finalmente eu levava aquela agulhada... Santo Deus! Minha pobre bundinha! Se ao menos eu tivesse os quilos insistentemente localizados, que hoje trago sem serventia, a dor poderia ser um pouquinho amenizada.

Terminada a eternidade da aplicação medonha, eu saía da farmácia meio capengando,arrastando o lado, com o queixo ainda travado por não ter gritado o quanto tinha vontade. Aí, minha mãe passava comigo no mercadinho ao lado da farmácia e comprava um pacote de suspiros deliciosos.

Todo mês era isso. Um rito. E nós íamos embora, comendo os suspiros e fazendo voltar aos poucos o riso, a conversa, a graça de qualquer coisa: ríamos do formato de um ou outro suspiro,” _Olha! Esse tem um narizinho!”... Fingíamos suspirar trazendo troça da dor que já era passado, ríamos do rosto polvilhado de açúcar fininho... E comíamos os suspiros! Um, outro! E mais outro, pelo caminho de volta.

As outras sensações, as roupagens diversas da dor se desfizeram com o tempo. Mas ficou a dor do suspiro delicado, que se dissolvia na boca. Ficou só a dor da doçura. O paladar da minha alma guardou para sempre o sabor da dor da saudade. Saudade do suspiro doce de mãe.

Leda Bossi

MEU PRANTO,
MINHA DOR!

Esta noite eu vou chorar

e serão amargas as lágrimas que cairão,
porque estou só e deprimida,
angustiada nesta minha vida,
com uma dor imensa no coração.
Esta noite eu vou chorar
e não adianta olhar o céu,
porque não há nuvens correndo ao léu
e as estrelas se esconderão.

Vou chorar e muito
até que o sono feche a fonte
da minha angústia e solidão,
e com o rosto molhado e frio
afinal descanse na inconsciência,
na inquietude do meu carente coração.
Amanhã, certamente,
Acordarei cansada, amassada,
Meio tonta, meio fria,
Atordoada pelo pranto,
Mas consolada pelo sono
A começar um novo dia.

É madrugada ainda e não parei de chorar.
Será que vale a pena tanto pranto?
Afinal, de que vale o sofrimento,
Se nada há para que termine?
O que pode me consolar?
Talvez olhar para frente e esquecer.
Respirar fundo e sorrir.

Não é o primeiro,
não será o último desencontro, acho eu.
Não sei o que há de vir.
Virão sonhos? Virá a realidade?
Haverá alegria, depois, de novo, a saudade?
Por que é tão doído pranto meu?

Rachel dos Santos Dias


ENSAIO SOBRE A DOR

Há aquele que se compraz sentindo dor
Busca-a, onde estiver
Na rua, na calçada, na foto, no passado, na lembrança
Quando a encontra (e não demora a achá-la),
abraça-a como um ente amado
e a sente num ímpeto de clarão.
Vira hipocondríaco do acaso,
pois para se livrar dela,
qualquer remédio basta.
Mas logo precisa de outros,
pois a dor nunca vem só.

Há aquele que dela foge
como um escravo do seu grilhão!
A dor o pega em qualquer esquina,
em qualquer lugar,
pois quem o invade,
não é a paz!
O medo é uma fábrica de dores!


Há aquele que de tão desvairado,
vê-se por ela penetrar.
Para expulsá-la,
aos outros manda matar,
espoliar, injuriar, injustiçar!
Tem sempre comentários e ações
que possam ferir aos outros,
fazer a dor pular,
só que é dentro de si,
que a danada vai ficar!

Há aquele que a dispensa.
Diz que com ela não pensa.
Forja felicidade e saúde,
como quem busca a ilusão.
Mas a dor é mais forte e vem,
toma posse!
Caminha, lado a lado,
com quem bem entende,
seja ele seu inimigo ou fiel guardião!

Há os corajosos de plantão,
que dela aceitam qualquer desafio.
Se comigo assim é,
que venha a dor,
do jeito que vier,
a mim encontrará
e dela farei pó!

Liz Rabello




A Dor...
A Dor física,

Entristece e é feia

Mais feio ainda é o choro da dor

As lágrimas rolam queimando

Estado lastimável,

Oh! dor dolorida.
A dor emocional,

É sentimentalmente triste

As lágrimas carinhosamente

Parecem consolar.

Estado melancólico,

Oh! dor sentida.
Assim falam das dores...

Clarice Lispector... um amigo:

“...Um amigo me chamou pra cuidar da sua dor, guardei a minha no bolso. E fui...”

John Lennon... todos os lugares:

“...Não se drogue por ser incapaz de suportar sua própria dor. Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo...”

Adélia Prado... nada a ver:

“... Dor não tem nada a ver com amargura, vem pra gente ap´render cada vez mais...”
Edvaldo Santana... a dor que anda:
“... Essa dor canto tem no vento a sutileza / De cantar a dor que é a mesma / Dor que anda em toda mesa / Onde sentam os inocentes...”

Mario Quintana... devolução:

“... Se eu pudesse eu pegava a dor. Colocava dentro de um envelope e devolveria ao remetente...”

Carlos Drummond... inevitável:

“... A dor é inevitável, o sofrimento é opcional...”

Allan Kardec... Deus criou:

“...Deus criou todos os homens iguais para a dor a fim de que cada um julgue o mal que pode fazer...”

Patativa do Assaré... porém:

“... Há dor que mata a pessoa sem dó nem piedade. Porém, não há dor que doa como a dor de uma saudade...”

Paulo Leminsk... lado bom da dor:

“... A dor deixa o homem mais elegante...”

Pe. Fábio de Melo... esquecer:

Você pensa que essa dor não vai passar... mas passa...”

Sigmund Freud... o medo:

“...Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda...”

Fernando Pessoa... a própria solidão:

“... Sem passar pela dor da própria solidão, continua nossa busca em outras metades...”

Chico Buarque... ninguém vê:

“... A dor da gente não sai no jornal...”

Dor curada
Dor que fica

Dor que vai e volta

Dor que sufoca

Dor que mata

De dor...

(Milton Luna)






DESAFIO DE ESCRITA


SOMBRAS


Mistério no reflexo das águas
Sol, brilho, luz que reluz!
Sombras se cruzam com mágoas
Dilaceram e desfazem em lágrimas!
Galhos retorcidos em quimeras
Imagens, mosaicos sem encaixes
Árvores que se chocam no universo
Céu azul, anil, verde musgo a tecer
Esperanças

Liz Rabello


ESPANTALHOS DO PASSADO


Durante toda minha vida, minha mãe era contra minha participação em greves. Ficava nervosa demais e brigava comigo o tempo todo. Minhas memórias apenas me mostravam um olho roxo de papai, marcas de espancamento no corpo e quatro dias fora de casa. Sim, fora preso, como líder de seu grupo. Greve! Esta palavra tão difícil de ser pronunciada em tempos de construção do operário, desta classe social oprimida pelo sistema. Mil novecentos e cinquenta e três! As lutas operárias se intensificavam em todo o Brasil. Além de ser preso, foi mandado embora do trabalho, carteira "suja"... Era esta a palavra. Nunca mais conseguiu emprego. Na parede da cozinha havia um buraco, onde papai muito doente, (Fibrose pulmonar, adquirida pelo pó de madeira da fábrica, que não tinha sistema de anti poluição), deixava a cabeça a flutuar num desejo de pôr na mesa da cozinha um pouco mais do que chuchu, colhidos do fundo do quintal.

Liz Rabello - 2014

INJUSTIÇA!
Segunda-Feira. Minha irmã saiu para o trabalho. Era recepcionista de uma empresa. Beijou-o na testa, como sempre fazia. Ele lhe disse baixinho: “Não chegue tarde, é aniversário de sua mãe! Vamos fazer-lhe uma surpresa!” E realmente a fez!
Acordei com os gritos de mamãe no quarto. Ele deu os últimos suspiros desejando a ela um “Feliz Aniversário!” Meu pai era um homem sereno, amoroso, orgulhoso de mim. Com ele, eu me sentia amada! Protegida! E quando ele se foi desta vida para sempre, toquei o chão, sem alcançar estrelas...
Ficara doente sete anos antes deste sete de fevereiro. Marceneiro de mão cheia talhava madeira de próprio punho. Era um artista. Fazia móveis lindos! Ganhava muito bem. Tínhamos uma casa boa e bem mobiliada: geladeira, fogão a gás! Adorávamos o dia do pagamento dele, pois nos trazia potes de azeitonas, queijo prata, goiabada. Era festa em casa! Mas, (sempre tem um “mas”) a fábrica não tinha equipamentos de antipoluição e aquele pozinho insuportável foi se alojando nos seus pulmões, impedindo-o de respirar livremente! Ele foi o líder dos operários, à testa daquela greve, cujo panfleto eram os pedidos de melhores condições sanitárias dentro da fábrica! O mesmo desejo que o colocou nas mãos da justiça, era sua necessidade básica! Paradoxo da injustiça! Perdeu o trabalho que tanto amava, por estar perdendo a saúde para o ganha pão!
Naquele tempo, carteira assinada... Quem a perdia, não conseguia mais emprego. E além dele, estava perdendo a saúde e a vida!
Tínhamos um cachorro: Nero. Amigo fiel. Onde papai estava, podiam-se ver os seus pelos marrons brilhando ao sol, ou escondido atrás da sua cadeira de balanço. Uma semana após a sua morte, mamãe decidiu colocar a capa cinza e o chapéu de couro, que tanto papai usara, ao sol! Pretendia dar de presente a um tio. Pendurados no varal, o vento os balançava num ritmo frenético de dor! Nero se aconchegou, ali pertinho ficou... E chorou!
(Liz Rabello, in INTERVALOS, "INJUSTIÇA", Beco dos Poetas, 2013. SP)


Estávamos na trilha. O sol fustigando folhas verdes. Ao chão, ramagens secas de Outono. Havíamos combinado uma troca de presentes. O que achássemos de inusitado seria nosso tesouro: tema para um novo Desafio de escrita. Meu presente: uma garrafa pet. Mudei meu ponto de vista. E no objeto me fantasiei.


SOU UMA GARRAFA PET

Bem branquinha, já fui frasco de uma garrafa de guaraná Dolly. Um dia me reutilizaram como carregadora de água para beberam durante o caminho da trilha. Ao término do conteúdo, eu, simples plástico descartável, inútil, fui jogada em meio ao desafio outonal de folhas secas. Alguém pegou-me, brincando abraçou-me. Por um momento um flash me fez brilhar. Estrela de um sorriso no olhar. Uma foto e um carinho. Mas depois, ia de um lado a outro sendo jogada, trapo velho, mais nada. Quando cheguei a um lugar bonito, repleto de flores, uma tampa se abriu. Dentro fui jogada, sem carinho fui lançada, na escuridão, perdida. Saco preto, de plástico. Outras coisas: latinhas de refrigerantes, saquinhos de compras de supermercado, outras irmãs iguais a mim. Meu destino: Reciclagem. Fui parar num grande balcão e lá alguém me separou das coisas diferentes de mim e só me deixaram numa grande família de garrafas pet, onde poderíamos voltar à vida, novinhas em folha e sermos de novo algo importante para todos os humanos. Este foi meu fim correto, eterno vai e vem que não termina. Penso: O que seria de mim, se na trilha ficasse? Em meio ao mundo orgânico e natural da mata ciliar daqueles lindos lagos, como poderia não danificar o meio ambiente? Impossível! Não consigo morrer, deteriorar e voltar à vida em outra vida e me transformar em mais vida. Mil anos são precisos para que eu possa não prejudicar o lugar onde sou esquecida. Se pudesse deixar uma mensagem aos humanos, claro, assim seria: Leve-me contigo para onde quer que vás, meu destino tem que ser a RECICLAGEM.

Liz Rabello

GRITOS

Vô chegano de mansinho
Me esguerano pelo matinho
Com quarqué baruio fico ativo
Meio morto, meio vivo
Apeio do animar
Entro no mato bem divagar
E paro pra escuitá
O baruio dos bicho
E os passarinho cantá.
José Luiz Pires

Verde que te queremos verde
 para maritacas e beija-flores
Prá natureza sorrir
E colorir nosso olhar
Conceição Gomes

 No oco do mundo
Espia-se a vida
Curiosidade e atrevimento
 será chave assim
Voos mirabolantes 
Num céu repleto
de possibilidades.
Nurimar Bianchi

No oco da árvore
Jovens maritacas
Penas cor de folha
Bicos de sementes
Olhares e gritos de indagação...
Milton Luna

Família toda aflita
Homens na mata
seca cortada
machados no ar
árvores tombando sem parar!
Liz Rabello

Uma arara fugida
pousa assustada
fica aflita
fica arrasada
Não tem pra onde ir
Se a árvore cair!
Acácio Costa

Não corte uma árvore sequer
 A natureza chora pelos animais
Quando o vento soprar elas sorrirão
 As aves cantam nos seus troncos
 O verde é vida divina.
Menduina Francisca

O apelo da Natureza
para nos sensibilizar
 vem na voz dos animais
 no vento cantando doce
 entre folhas e ramagens. 
Resta ao Homem escutar.
Lu Narbot

O homem não sabe escutar
O homem só sabe cortar
O que lhe dá a natureza
Ele não conserva a beleza
Que Deus lhe deu pra desfrutar!
Acácio Costa

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